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O lar como campo missionário

O lar como campo missionário

Eu estava no meu trabalho, e nos fones de ouvido tocava um hino em espanhol que eu já tinha ouvido muitas vezes. A letra fala sobre “se você sabe onde encontrar Jesus, por favor, diga-me, porque eu preciso encontrá-lo. Se você sabe onde ele passeia, o que a sua alma deseja, conte-me, eu preciso escutá-lo.” E, nos refrões, estavam, também, as respostas: Ele não estará em lugares grandiosos, nem onde você pensa que Ele está. Antes, estará onde há necessidade, onde você menos imagina, entre as pessoas a passar e entre meninos e sorrisos, ali você O encontrará.

Naquele dia, essas palavras atravessaram o meu coração. Porque muitas vezes criamos expectativas a respeito de como e onde o Senhor quer que sejamos Seus instrumentos. Até falamos sobre nossa casa ser nosso primeiro ministério, mas temos dificuldade de, realmente, perceber o nosso lar como um lugar onde Ele deseja alcançar vidas, e onde Ele espera que façamos algo para Ele. E, ao ouvir este hino naquele dia, sendo mãe de dois meninos pequenos, que gargalham de coisas simples enquanto brincam e correm pela casa, foi como se o Senhor me dissesse: “eu não estou apenas no templo; eu estou presente e quero me revelar na sua casa.”

Sim, nós sabemos disso, mas muitas vezes vivemos como se nos esquecêssemos dessa verdade. Além do mais, a rotina é cheia, e transmitir as mensagem do Senhor aos que compartilham a vida conosco não é menos desafiador. Mas, na Sua soberania e perfeição, Ele não nos pede que façamos isso sozinhas.

Pouco antes de ascender aos céus, Jesus disse aos discípulos: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.” (Atos 1.8, grifo meu). Mais do que fazer referência apenas à nossa cidade, “Jerusalém” fala de onde estamos. E o lugar em que mais estamos, por inteiro e sem reservas, é a nossa casa. E apenas uma das formas de atendermos ao chamado do Senhor dentro do nosso lar é ensinando sobre Ele aos nossos filhos.

Quando deu Sua lei para o povo de Israel, o Senhor disse palavras que falam fortemente ao meu coração. 

“Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te.” (Deuteronômio 6:4-7, grifo meu)

Deus colocou nos ombros de cada homem e mulher do seu povo a responsabilidade de ensinar aos seus filhos as Palavras do Senhor. Não foi aos sacerdotes, nem aos levitas que o Senhor ordenou o ensino das próximas gerações, mas, sim, a cada um que recebesse Dele a graça de ser pai e mãe. 

Talvez pensemos que quando eles forem à Escola Dominical eles aprenderão. Ou talvez olhemos para eles tão pequenos e consideremos melhor esperar que cresçam um pouco mais. Mas enquanto presumimos que nossos filhos são novos demais para ouvir e entender sobre Jesus, o inimigo está enchendo a mente e o coração deles com mentiras.

Apoiamo-nos, talvez, no pensamento de que nossa salvação não depende de nosso desempenho em um questionário bíblico e enchemos os corações dos nossos filhos com histórias e personagens que nada têm de Cristo. Na verdade, ao fazer isso, estamos desperdiçando tempo e oportunidades de inculcar neles as verdades de Deus e Sua palavra. Mas por quê não dar a eles conhecimentos suficientes para que eles desejem ser como os homens e mulheres de Deus que estão nas Escrituras, ou mesmo como Jesus?

No texto de Deuteronômio, também chama a minha atenção o trecho que diz: “(…) e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te.” (Deuteronômio 6:4-7). É uma menção a falarmos das palavras do Senhor o tempo todo, em nosso dia-a-dia, enquanto vivemos a nossa rotina, aproveitando as situações do momento para transmitir os ensinos do Senhor.

A autora Ginger Hubbard, em seu livro “Não me faça contar até três!”, fala sobre a importância de ensinarmos os corações dos nossos filhos em obediência ao Senhor, fundamentando sempre os ensinos na Sua Palavra. Além disso, nos orienta a ajudá-los a avaliar e compreender o que há em seus corações, e explica que, ao fazermos isso, estamos “ensinando-o a avaliar suas próprias motivações, o que o ajudará a equipar-se para sua caminhada com Cristo à medida que se torna adulto.” (Ginger, 2015, p. 46)

E o que isso tem a ver com a salvação dos nossos? Ela acrescenta: “Nosso objetivo em sondar o coração da criança é trazê-la à avaliação sóbria de si mesma como pecadora, ajudá-la a reconhecer sua necessidade de Cristo, e ensiná-la a agir, pensar e ser motivada como um cristão.” (Ginger, 2015, p.51). É mais profundo do que corrigir os comportamentos errados, ou apenas informá-los do que a Palavra de Deus diz. É instruí-los na verdade, e, verdadeiramente, a aplicarem as Escrituras na sua vida diária. 

Uma das formas de envolver nossa família com a Palavra e o Reino de Deus é através do culto doméstico. Ele pode ser uma oportunidade para, juntos, aprendermos mais sobre as Escrituras, dialogando sobre o texto e as verdades bíblicas num ambiente livre e acolhedor. Pode ser uma oportunidade para ensinarmos a prática da oração e do louvor, além de um sincero exercício de gratidão e fé no Senhor.

Se, em nosso lar, cultivarmos a realização do culto doméstico como uma tradição familiar, poderemos colher frutos que vão além do ensino e discipulado. O Dr. James Dobson, escritor cristão e uma grande referência sobre família, explica que as chances de nossos filhos buscarem identificação fora do seio familiar aumentam quando não há laços fortes de relacionamento entre pais e filhos. Ele esclarece que, além de estabelecermos limites claros fundamentados em amor – e na Palavra de Deus -, é imprescindível que criemos um profundo relacionamento, com proximidade emocional. “Um laço vitalício, no geral, emerge das tradições que dão significado ao tempo que a família passa junto.” (Dobson, 2003, p. 228).

Em outras palavras, além da edificação espiritual, a tradição do culto doméstico é uma ferramenta para gerar um senso de pertencimento e fortalecer a identidade dos nossos filhos, contribuindo para evitar que se afastem da fé e dos valores que lhes foram apresentados no lar.

Além disso, o culto doméstico pode ser uma ferramenta para a evangelização das pessoas que não moram conosco, mas, por ventura, estejam em nossa casa no momento em que costumamos realizar os cultos. Em vez de suspendermos, com a justificativa de um “compromisso excepcional” por causa das visitas, podemos envolvê-las e transmitir a elas a bênção da edificação espiritual pela mensagem da salvação. 

Nas Escrituras, Loide e Eunice nos deixaram um exemplo maravilhoso sobre o ensino aos nossos filhos quando transmitiram a Timóteo o ensino mais importante na vida de qualquer criança: a fé genuína e o conhecimento da Palavra de Deus. Os frutos desse trabalho tomaram dimensões que, acredito, elas nunca teriam imaginado. Elas apenas se concentraram na oportunidade que o Senhor havia colocado diante delas naquele momento e se dedicaram com todos os seus esforços e recursos.

Não ficaram esperando outras oportunidades. Não perderam tempo, não delegaram a outros, nem negligenciaram seu chamado, mas, pelo que os resultados testificam, vemos que o cumpriram com excelência. E isso não é sobre estar nos registros da história da igreja; é sobre viver os propósitos do Senhor, viver o que Ele tem para nós, tanto aqui quanto na vida eterna.

Por,

Ana Formigari
Esposa e mãe;
Ministra da Palavra;
Escritora e Jornalista.