Mulheres que cuidam e precisam ser cuidadas
O cuidado foi e é essencial para o desenvolvimento humano em sociedade. Historicamente, na tradição judaico-cristã, cabe à mulher representar essa persona incansável que cuida de tudo e de todos, na família e na igreja. Muitas de nós, mulheres cristãs, sentimos uma inclinação para o cuidado e fomos ensinadas desde cedo que este é nosso papel. A mulher virtuosa descrita em Provérbios 31, tão cara em nossa cultura cristã, é o ideal que alardeamos entre nós. No entanto, sem prejuízo ao valor da mulher virtuosa, podemos aprender com Jesus quando ele trata com Marta (Lucas 10.41): Marta se dedicou a ajudar no trabalho mais pesado e se sentiu injustiçada em carregar sozinha esse peso; Jesus viu que Marta também precisava da boa parte: sentar-se aos pés do Mestre, receber antes de dar.
Quem está cuidando daquela que cuida de todos? Há a necessidade da conscientização de que todas nós, além de oferecer o cuidado, necessitamos também de receber a boa parte, ser cuidadas, inclusive adotando a prática do autocuidado.
Como psicoterapeuta, em meu consultório atendo pela Internet dezenas de mulheres em todo o Brasil e brasileiras no exterior. Chegam até mim mulheres exaustas, com a saúde física e mental enfraquecida, cumprindo seu propósito de cuidar dos outros com dedicação. Elas expressam virtudes preciosas, tais como amor, generosidade, empatia e compaixão. Porém, por outro lado, estão carentes de cuidado e não conseguem tempo para si, para sua saúde física e mental. Isso pode levar ao esgotamento físico e mental, desregulando o sistema de resposta ao estresse, do qual o cortisol faz parte. Algumas desenvolvem sintomas de ansiedade e de depressão. Elas não querem se mostrar fracas e buscam o ideal bíblico da mulher virtuosa.
Muitas mulheres cristãs acreditam, ainda que secretamente, que descansar, priorizar um exame médico ou investir tempo em si mesmas é um ato de egoísmo ou de “fraqueza espiritual”. No meio cristão pode haver uma tendência de romantizar a exaustão física, como se fosse um fator essencial da santificação. No entanto, o próprio Jesus reservava, para si e para seus discípulos, momentos de descanso e autocuidado (Marcos 6.31). Buscar apoio psicológico também é autocuidado, e não falta de fé.
Da mesma forma, a Psicologia Positiva também indica, com base em evidências, que o bem-estar e o florescimento humano estão associados ao autocuidado. É impossível servir com excelência e alegria se o seu “cálice” emocional e físico estiver vazio. No mesmo sentido, a mulher virtuosa narrada no livro de Provérbios consegue sorrir diante do futuro (Provérbios 31.25). Está pronta para o futuro. Essa prontidão não será possível se houver o esgotamento que impede esse sorriso confiante com o que vem pela frente. O autocuidado é necessário para reduzir os riscos e os impactos de doenças físicas e desconforto psicológico.
Neste mês de outubro ocorre o Outubro Rosa, movimento internacional de conscientização sobre o câncer de mama apoiado pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Câncer do Brasil. Incentiva o autocuidado e a conscientização de que é necessário cuidar da própria saúde em relação ao risco de câncer. Essa campanha é importante porque o câncer de mama é uma das principais causas de mortes no Brasil. A boa notícia é que, se for descoberto precocemente, há grandes chances de cura. Para isso, conhecer o próprio corpo e examinar as mamas no dia a dia, fazer a mamografia na idade indicada e a visita regular a um ginecologista são atos de sabedoria com o próprio corpo.
Dos 50 aos 74 anos, o SUS recomenda mamografia a cada dois anos. Entre 40 e 49 anos, a mulher tem direito ao exame mesmo sem sintomas, em decisão conjunta com o profissional de saúde. Quem tem casos na família deve conversar com o médico, que pode indicar o exame mais cedo. Em qualquer idade, caroço na mama ou na axila, pele repuxada, alteração no mamilo ou saída de líquido devem ser avaliados logo. Algumas mulheres adiam o exame preventivo por medo de um diagnóstico desfavorável; outras estão muito sobrecarregadas e não encontram tempo ou ânimo para o exame médico, deixando para depois. Não é culpa delas, mas um resultado das circunstâncias da vida diária de trabalho, cuidados com os outros ou dedicação à igreja. Na maioria das vezes, a conscientização e o autoconhecimento podem ajudar no equilíbrio entre cuidar e ser cuidada. Cabe aos grupos sociais, especialmente às igrejas, o incentivo para esse equilíbrio.
Autocompaixão não é egoísmo nem fraqueza. É ter bondade consigo mesma como se tem por uma amiga ou pela família. Pessoas que tratam a si mesmas com gentileza geralmente têm comportamentos mais saudáveis na alimentação, exercícios físicos, higiene do sono e cuidados médicos. Além disso, cuidar das próprias emoções, cultivando emoções positivas, promove o florescimento da pessoa em seus relacionamentos, no sentido de sua vida e na sensação de autorrealização. Quem está bem consigo tem melhores condições de cuidar dos outros.
Neste Outubro Rosa, marque seu exame e convide uma irmã da igreja para ir com você. Que a oração de João seja a nossa: ‘Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai a tua alma’ (3 João 2). A mamografia é gratuita pelo SUS; procure a Unidade Básica de Saúde.
As orientações deste texto são de caráter informativo e não substituem orientação de profissionais de saúde física e mental.

Zenilda Diniz da Silva Souza
Psicóloga
CRP 14/01224-3